segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Pensamento submerso

O pensamento começa com a dúvida … somente na dúvida … em que o que sabemos é uma simples e ingénua gota e o que ignoramos é a imensidão de um oceano …
Julgamos eternas aparências de um mundo que nos engana … perdidos na comodidade arrependida, com lágrimas de crocodilo, da ignorância … é também preciso viver e não apenas existir … quiçá elevar no pensamento … pensamento submerso de ilusão e esperança …


Com a imagem trémula algures … ao longo do percurso …
Em que o dedos entreabertos definem imaginários e misteriosos contornos num pensamento submerso …
Neste sentir sem feitio, sem sinal … no correr da paz da tarde, num mundo de sonho … provavelmente a sensação do fantasma de quem costumava ser …

Afundar nos enredos da vida … no auge do "Ser" e mentir, mentir intimamente … glorificar verdades mentirosas do que se quer ou se tem medo de ter …
Escalar pensamentos íngremes e escarpados, viajar na suave e extensa memória do jamais voltar a ter, tropeçar em recordações das quais há saudade … dias que não voltam atrás … oportunidades perdidas … inconscientemente … mas conclui-se ao percorrer na íntegra, criando no tenebroso imaginário a Tempo Encantado do Anoitecer, infinitos tempos irreais, pura ilusão de sonhos e sentimentos não esquecidos!


Alucinar no sentimento … com esperança de esquecer o medo …
Na angústia da dúvida que a razão atiça a cada circunstância.

Um arco-íris duma cegante luminosidade no caminho resplandecente … abre a bruma, e vai lentamente espreitando… à medida que o Sol vai fugindo …
O fascínio misterioso dum pôr-do-sol à beira-mar encoberto em segredo, talvez um leve palpitar no mais dissolvido Ser, algo que vai para além daquilo que é preciso acreditar…




Desfocados contornos humanos vagueiam, em sombras assustadoras … parecem figuras de lendas sistematicamente contadas ao escurecer …
Uma voz, leve, chama … suave, diz para escutar o inconfundível e maravilhoso mar, que transmite paz … num longo trajecto matinal … o melhor amigo … melhor conselheiro...

Especular o voo das gaivotas, supor o seu destino … se têm medo de voar … ou será que algo as preocupa … concentrado no sistema circundante, ficar a voar com elas para longe, a linha do horizontes, o limite sem limites … e pedir que o momento não acabe…

Ofusca o fim do anoitecer, em regressão ao habitual pensamento, comum… submerge … dum caminho, duma luminosidade, duma bruma, e vai lentamente espreitando sem querer olhar … deixar um adeus à quietude, à paz profunda … pairar no ar num último voo sublime … de espaços infinitos … no fim sem limites, sem vedações, sem muros, sem fronteiras …





Mas … existe um mundo á volta … e … ao olhar em redor no vastíssimo areal, amarelo-torrado, de razão que se ausenta suavemente engolido pela força do mar, da rotina no poente … vagueando, pé à frente e atrás, sentindo a plenitude … não passamos de mais um estranho, um simples desconhecido … que caminha só … acompanhado pelo vento, acompanhado pela solidão … um livro, que ninguém se digna a ceder um leve e curto sopro para tirar o pó … que ninguém quer abrir … folhear … deixando apagar as páginas de uma vida, momentos … afogar sentimentos … afundar pensamentos submersos …

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