quinta-feira, 19 de março de 2009

O álbum de recordações

Olhar no passado... cansado de ver o presente, uma realidade demente de si só, de ser quem é, quem quer ser...
Cansei-me do presente, doente de mim, doente de recordações, doente de mentiras, de enganos e conquistas sem fruto. Cansei-me de ser eu, de quem sou, de como sou, como quero ser, como não sou capaz de ser... nem sei se serei mesmo eu...

Abri o álbum de recordações, aquelas sensações guardadas em pequenas fotografias esquecidas, no canto da prateleira empoeirada, sem sinal de movimento ou utilização, como se quisessem passar despercebidas, esconder-se de quem as quisesse ver...



Estava ali, como todos os outros dias. Mas hoje, não sei... mostrou-se diferente, como se tivesse algo novo. Mesmo assim reparei nele, reparei nele... tão só separado dos outros como se aquele fosse o seu mundo, talvez apenas um segundo, ou dois...

Essa característica é comum em todas as pessoas, curiosidade. Vivemos a tentar prever o que poderá vir depois, ou não virá. Foi então que... lhe peguei como o maior cuidado, iria desfazer-se, coisa mais delicada, pensei eu...

Era velho, muito velho... tão frágil e tão poderoso... O seu aspecto frágil esconde o seu poder, de trazer á tona o passado, nada mais o conseguiu até então...

Um leve sopro que solta o pó da sua superfície cinza... capa espessa, fazia-me lembrar outro álbum que eu próprio fiz... a semelhança era imensa, os contornos torneados, as abas semi-concavas...

Abri a capa, logo no inicio... Mania de começar pelo inicio. Quem não tem curiosidade de saber o que acontece no fim? Como vai terminar?

Apesar de fechado estava sujo, de um fina camada de pó, espessa o suficiente para impedir que vislumbrassem o seu conteúdo. Peguei num farrapo e limpei completamente aquela superfície... afinal era o meu álbum, um álbum que escondi de mim com medo de enfrentar o passado, as memórias que fingi esquecer...


Um álbum começado do inicio, um inicio … todos querem um inicio … será possível, mas qualquer um consegue dar um inicio … sim … existem requisitos para começar … é preciso ter coragem … determinação … iniciativa … uma boa ideia do que se quer …
E um fim … será que qualquer um consegue dar um fim?

Mas não tive coragem de lhe dar um fim... ficou inacabado, como tantos outros projectos que nunca quis enfrentar, com receio do passado, ou do futuro. Era tudo feito do mesmo material, o mesmo de que são feitos os sonhos em que não era obrigado a vencer mas a ter o dever de ser verdadeiro …

Mas que significava tudo aquilo, sem sentido, sem motivo, sem traços gerais para seguir um pequeno caminho que fosse... mas tudo se resume a factos...
Factos da vida, factos que atravessamos, factos que enfrentamos, factos que não queremos saber ou factos que nos perturbam e deixam sem dormir... E talvez fosse isso, talvez posse tudo junto, todos estes factos num só, um turbilhão de confusão a mais que remontam a tempos passados, mais sossegados em que nada se passava, em que tudo e nada eram um só...

Em muitos momentos, ponderamos um final dos factos e acontecimentos involuntariamente … isso quando o destino não decide colaborar e o fim acaba por ser o início por conta própria … É mentira afirmar que se inicia pelo fim … porque o inicio é por onde se começa, independentemente da ponta da corda que se queira puxar...


Mas há algo realmente muito importante nesse pensamento. Existe, nisso toda uma esperança, um optimismo, um apoio pelo bem sucedido, seja lá o que ele for. E, se o fim é a felicidade, por que não começar por ele?

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