quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Despedida - "A Traição das Elegantes"

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

 Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para quê explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.


Extraído do livro "A Traição das Elegantes", Editora Sabiá – Rio de Janeiro, 1967, pág. 83.

Porquê desistir agora?


Acordei a sorrir, e deito-me a chorar...

A jornada foi longa e assim tento mascarar o que sinto, tento enganar-me, na dubiez já certa.

Vou falar? Não vou falar?
Pode a minha compreensão me iludir...
Ou posso admitir que não entendi, na errónea quimera tentando prever que consigo aguentar!
Será?! Mas esperar para quê? Por algo que já não vem?!

"Mais uma vez estás a enganar-te e vais bater com a cabeça!" – é o que meu lado direito me diz, o da razão!
"Aguenta mais um pouco, tudo é possível e vai correr bem!” – é o que me sugere a parte esquerda, do coração!

E agora?!
O labirinto que me desorienta, nesta roda-viva em que a saída foge a cada passo dado na direção que parece certa, ou incerta. Longa é a madrugada de um dia em que o sol não se põe! Será que fui longe demais? Poderei eu parar e regressar?!

A ingreme descida foi longa no correr da praia da solidão. Matinais são as pegadas que deixei, mais que leves marcas na areia foram apagadas, e algo me diz que devo seguir em frente!

Longínquo é o meu destino e longa foi a caminhada! Porquê desistir agora? "Não pares e segue em frente", volta a criticar meu coração! E quem disse que o coração não tem um pouco de razão?!

Nos caminhos de pedra calejados poderei tropeçar, posso até cair! Seguramente terei forças para me erguer e encarar mais um desafio que incita a vida e a forma de viver como nunca ninguém o fez.

Recuando alguns pensamentos, arrisco afirmar já não ter objetivos para batalhar ou energia para lutar, sorrir por delicadeza, prometer verdades que jamais acontecerão e sonhar quando não durmo, silenciosamente à espera, simplesmente, do que não vai acontecer!


E dou por mim, a lutar por numa disputa perdida, em que me perco e sei que morri, mas não sem mostrar que queria lutar! Não como um covarde que desistiu na primeira linha de defesa!


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Eu quero sonhar

Um dia quis deixar de sonhar...

Há momentos na vida num olhar, que nem sabe o encanto que ele tem que sentimos falta de um conforto, de alguém!

Agarrar aquela que figura nos meus sonhos e abraça-la como se amanha fosse o nosso ultimo dia. Sim. Tambem quero um abraço forte e apertado.

Sinto falta disso!

Muito!



E sinto-me.... por saber que posso nunca vir a ter a oportunidade de o fazer como verdadeiramente gostaria.

E o dia acaba! Mais um longo dia, em que no fim, nada me espera!
Porque nada é mais triste do que acabar o dia e encontrar uma casa vazia.
Apenas a esperança de que alguem se lembre de mim com um pequeno e aparentemente insignificante gesto, de boa noite.

E a saudade... mata com a incerteza entrelaçada.
Não passa de águas passadas que se acumulam no coração, inunda os meus pensamentos, transborda pelos olhos, desliza em gotículas de lembranças que por fim, quando a saudade é demais, não cabe no peito e escorre pelos olhos e morrem na realidade do lábios.

Um dia quis sonhar e virar a minha vida do avesso.
E tenho medo, porque o quero fazer na esperança de poder estar perto... e no fim... a tua vontade seja partir para longe.

E por muitos sorrisos que espelhasse não seria mais eu.
Sentir-me-ia novamente como mais um dia que termina e nada me espera.
Naquele que se espera, o que talvez não vem.

Eu quero sonhar.
Mas quero sonhar contigo e poder acreditar num amanhã ao teu lado.