quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Porque se calou o mar...



“Aqui nessa pedra, alguém sentou para olhar o mar.
O mar não parou para ser olhado Foi mar pra tudo que é lado”
Paulo Leminski



Enquanto percorria os longos prados de areia e maresia, um dia, o mar sentou ao pé de mim…
Desejava falar, queria desabafar…

O mar em pessoa, molhado, salgado, ali, sentado.
E ali permaneci, a escutar o que o mar proferia…
Um surpreende léxico poético ecoou das dunas aos meus ouvidos! Até parece que foi ontem… talvez ontem, o mar que me falou.

Com um humor contagiante riu de tudo e riu de nada! Das areias da praia e das cocegas que lhe fazem, da imensidão e o vazio o que o cerca, dos loucos que por ali passam e lhe falam, dos que lhe segredam, dos que se sentam a ouvi-lo, sem escutar. Se quisesse rir de um louco, não precisaria ir muito longe. Então riria de si mesmo!


“Apresso-me a rir de tudo, com medo de ser obrigado a chorar.”
 Pierre Beaumarchais


Com a amargura da solidão chorou, todos os medos que as ondas lhe instigam, as mágoas que os rios lhe ocultam, as preocupações e raiva que a chuva lhe trás. Teve vergonha de gritar que esta dor é só dele, de pedir que o deixem em paz e a sós com ela!


“Deve existir algo estranhamente sagrado no sal: está nas nossas lágrimas e no mar...”
Khalil Gibran


Chorou…
… tudo o que o que se perdeu,
… por tudo o que apenas o ameaçou e não chegou a ser,
… por si só, grande e solitário,
… hoje sujo, pela amanhã,
… porque sempre amou e nunca o amaram…


Não me pronunciou uma só palavra de amor! Será uma jura de luxo?
Pronunciou sobre a sorte e o futuro, incertos…
“ Já te perguntaste: ‘Onde está o meu destino?’”


E lacrimejámos, troçamos e juntos entoámos melodias, o som das ondas na brecha de um mar calmoso. Sentia-me bem e confiávamos um com o outro.

Convertemos ideias em pensamento, opiniões em conselhos, medos e angustias.
Apelidei-o de conselheiro e confidente. Foram poucas as suas palavras:

“Se não consegues entender o meu silêncio de nada irão adiantar as palavras, pois é no silêncio das minhas palavras que estão todos os meus maiores sentimentos.”



Então, levantou-se e sorriu… um sorriso malandro como de quem faz troça.
Atirou-se nas águas desertas sem fim, apartou-se e eu fiquei ali a contemplar as ondas que pareciam dizer, “tem paciência”…

No horizonte, longe o brilho da estrela solar desceu em agonia na noite que se fez. Tingiu as águas de várias cores cada vez mais escuras até ao negro pálido.

E eu fui… e segui o meu caminho assim como ele.
Contudo, a saudade ficou, voraz, naquela amarga voz de quem fica para trás ou a trémula de quem parte!

Os anos passaram e tornaram-se décadas. Na esperança de reencontrar aquela figura, regressei, para conversar, cumprimentar e agradecer…

Queria conjurar novos temas e ambições, mas foge de mim e não me deixa alcançar.
Orgulho que me prende também, de ir atrás e correr, simplesmente … fazer notar que estou aqui. Finge que não me conhece e nunca esteve! Não se elevou e eu invoquei e bradei, clamei às ondas um sinal!
Mas nem aquela sombra figurada me assombrou nas ondas que quebram…

E desde então o mar nunca mais me falou…
Nem as sereias do mar queriam acreditar, em tamanho ignorar…



“- Abandonou-te?
- Pior ainda: esqueceu-me...”

Mario Quintana



Segundo os anciãos da arte xávega, reza a lenda que o mar personificado, só aparece uma vez a cada 10 anos!

Inesperadamente, aproxima-se daqueles que se deparam perdidos de si mesmos. Fala, diverte-se, entretém, comove e impressiona. Sorrateiro, da mesma forma que vem, também se vai, e desvanece na neblina repentina, calado e silencioso, sem regresso. Dizem que a sua aparição só acontece uma única vez por errante. Sem retorno. E fica ao longe, à espreita, segredando palavras entre a rebentação das vagas na noite mais sombria.


Tal como um farol, embora não se veja, há sempre uma luz que esperançosamente dá um sinal, e afirma que está lá… para guiar…

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