“Aqui nessa pedra, alguém sentou para
olhar o mar.
O mar não parou para ser olhado Foi mar
pra tudo que é lado”
Paulo Leminski
Enquanto percorria os longos prados de areia e
maresia, um dia, o mar sentou ao pé de mim…
Desejava falar, queria desabafar…
O mar em pessoa, molhado, salgado, ali, sentado.
E ali permaneci, a escutar o que o mar proferia…
Um surpreende léxico poético ecoou das dunas aos
meus ouvidos! Até parece que foi ontem… talvez ontem, o mar que me falou.
Com um humor contagiante riu de tudo e riu de nada!
Das areias da praia e das cocegas que lhe fazem, da imensidão e o vazio o que o
cerca, dos loucos que por ali passam e lhe falam, dos que lhe segredam, dos que
se sentam a ouvi-lo, sem escutar. Se quisesse rir de um louco, não precisaria
ir muito longe. Então riria de si mesmo!
“Apresso-me
a rir de tudo, com medo de ser obrigado a chorar.”
Pierre
Beaumarchais
Com a amargura da solidão chorou, todos os medos que as ondas lhe instigam,
as mágoas que os rios lhe ocultam, as preocupações e raiva que a chuva lhe
trás. Teve vergonha de gritar que esta dor é só dele, de pedir que o deixem em
paz e a sós com ela!
“Deve
existir algo estranhamente sagrado no sal: está nas nossas lágrimas e no
mar...”
Khalil Gibran
Chorou…
… tudo o que o que se perdeu,
… por tudo o que apenas o ameaçou e não chegou a ser,
… por si só, grande e solitário,
… hoje sujo, pela amanhã,
… porque sempre amou e nunca o amaram…
Não me pronunciou uma só palavra de amor! Será uma jura de luxo?
Pronunciou sobre a sorte e o futuro, incertos…
“ Já te perguntaste: ‘Onde está o meu destino?’”
E lacrimejámos, troçamos e juntos entoámos melodias, o som das ondas na
brecha de um mar calmoso. Sentia-me bem e confiávamos um com o outro.
Convertemos ideias em pensamento, opiniões em conselhos, medos e angustias.
Apelidei-o de conselheiro e confidente. Foram poucas as suas palavras:
“Se não consegues entender o meu
silêncio de nada irão adiantar as palavras, pois é no silêncio das minhas palavras
que estão todos os meus maiores sentimentos.”
Então, levantou-se e sorriu… um sorriso malandro como de quem faz
troça.
Atirou-se nas águas desertas sem fim, apartou-se e eu fiquei ali a
contemplar as ondas que pareciam dizer, “tem
paciência”…
No horizonte, longe o brilho da estrela solar desceu em agonia na noite
que se fez. Tingiu as águas de várias cores cada vez mais escuras até ao negro
pálido.
E eu fui… e segui o meu caminho assim como ele.
Contudo, a saudade ficou, voraz, naquela amarga voz de quem fica para
trás ou a trémula de quem parte!
Os anos passaram e tornaram-se décadas. Na esperança de reencontrar
aquela figura, regressei, para conversar, cumprimentar e agradecer…
Queria conjurar novos temas e ambições, mas foge de
mim e não me deixa alcançar.
Orgulho que me prende também, de ir atrás e correr,
simplesmente … fazer notar que estou aqui. Finge que não me conhece e nunca
esteve! Não se elevou e eu invoquei e bradei, clamei às ondas um sinal!
Mas nem aquela sombra figurada me assombrou nas
ondas que quebram…
E desde então o mar nunca mais me falou…
Nem as sereias do mar queriam acreditar, em tamanho ignorar…
“- Abandonou-te?
- Pior ainda: esqueceu-me...”
Mario
Quintana
Segundo os anciãos da arte xávega, reza a lenda que o mar
personificado, só aparece uma vez a cada 10 anos!
Inesperadamente, aproxima-se daqueles que se deparam perdidos de si
mesmos. Fala, diverte-se, entretém, comove e impressiona. Sorrateiro, da mesma
forma que vem, também se vai, e desvanece na neblina repentina, calado e
silencioso, sem regresso. Dizem que a sua aparição só acontece uma única vez por
errante. Sem retorno. E fica ao longe, à espreita, segredando palavras entre a
rebentação das vagas na noite mais sombria.
Tal como um farol, embora não se veja, há sempre uma luz que
esperançosamente dá um sinal, e afirma que está lá… para guiar…


