terça-feira, 12 de maio de 2009

O banco de jardim

Com o sol cintilando no teu rosto, acordaste, ali, deitada num banco de jardim. Não recordavas o motivo pelo qual dormias na rua, tão pouco sabias porque te sentia assim, não de corpo mas de espírito. Estavas desnorteada, dispersa nas dúvidas, e ali ficaste, entregue aos pensamentos.
Todos passavam e olhavam, mas, ninguém se interessava.
Esvoaçam andorinhas, Tu e as flores. Vermelhas, rosa escuro e lilases.
A tranquilidade. As horas que passaram. Dos ramos voavam já, uma vez mais, muitos dos amentos da cerejeira.
O sol, escondido por entre as nuvens e a brisa perfumada. O canto dos pássaros e o ranger do baloiço. Eu penso em ti. E tu, em que pensas?
Dentro do muro, um baloiço de jardim; fora, uma rua. Fora do muro, um caminhante. Lá dentro, um riso de rapariga bonita, de ti...
Empurrei-te o baloiço, para a frente, para trás... tinhas asas, eras pássaro, cometa ou avião! Movias-te como se fosses capaz de tocar no céu com a própria mão!
Prendo-me a ti na urgência de um grito, dado num labirinto esporádico... e... baloiço-me outra vez nesse olhar que seduz. Perco-me na intensidade ardente dos teus olhos que desvanecem a qualidade derradeira do teu coração...
E baloiço-me em partículas de luz, suspensas no teu olhar... no baloiço do jardim...
Sentados no banco do jardim, falamos das vidas. Das nossas. Do que perdemos, do que não ganhámos, do que vivemos, do que deixámos de viver, dos projectos que não realizámos. Das demasiadas perdas.
Hoje deixo mais algumas palavras para reflectir… Comecei recentemente algumas lembranças do passado pensando no futuro e fui descobrindo coisas fascinantes e outras verdadeiramente inimagináveis… de mim mesmo que pensei serem pesadelos de uma vida que não quis ter... Não vou divagar... apenas digo que um dia todos lá vamos chegar, e nessa altura não vamos querer ser apenas mais um velho sentado no banco do jardim…
Um velho sentado, curvado, de olhar triste e cansado, com uma história para contar, antes que o tempo se acabe, antes que o tempo o apanhe. Mais um velho num banco de jardim. Um banco de jardim quase vazio…